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Ano 3 - Edição 833 - Fortaleza - Junho de 2013

Matéria da Semana

CONFISSÕES DE UM REPÓRTER:

“O JUIZ QUE NÃO ERA JUIZ”


Na foto , a direita, o corretor da Bolsa, Campos Neto. Ao centro
o repórter de O Globo, José Mário Lima e a esquerda o Juiz de Menores
Dr. Antonio Joaquim Campos Neto, durante acareação no juizado.(Foto: O GLOBO)

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JOSÉ MÁRIO LIMA


Tive a honra de reusar esse título, (Confissões de um Repórter), de uma coluna famosíssima nos anos 50/60, assinada por um dos maiores jornalistas brasileiros de então: David Nasser, nos tempos da Revista “O CRUZEIRO”, dos Diários Associados. Com a morte de David Nascer, até o lançamento do JM Jornal do Município, em 1981, ninguém ousou “usar”  uma coluna com esse nome. 

Motivado por minha experiência nos grandes jornais do Rio, em que trabalhei, como O Globo, Correio da Manhã, Ultima Hora, Tribuna da Imprensa, Diário Popular de São Paulo, ( Sucursal do Rio), entre outros , iniciei uma série de relatos de cunho pessoal, numa coluna com esse título no JM. Agora com a reedição do JM digital dou vida, novamente, a “Confissões de um Repórter”, com casos inusitados, que ocorreram durante o meu árduo aprendizado no jornalismo carioca e na minha vida de modo geral..


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O INÍCIO DE TUDO

Comecei meu aprendizado na imprensa carioca, tão logo cheguei ao Rio em janeiro de 1968. Já trazia na bagagem as experiências adquiridas na “terrinha”, mesmo ante de estudar Jornalismo, ainda quando estudante da Faculdade de Letras, em 1965. Assinava a coluna No Mundo Universitário, na saudosa Tribuna do Ceará, de Ciro Colares e Pedro Mallman e José Sancho.
Em 1966 tranquei matricula na Faculdade de Letras e prestei vestibular para o então Curso de Jornalismo da UFC, a menina do olhos da mestra e idealizadora do curso, Adisia Sá. Sendo aprovado, meu entusiasmo pelo jornalismo aumentou. Afinal fizera o vestibular de Letras porque gostava de escrever, sonhava ser um escritor. Qual a decepção quando me vi estudando línguas neolatinas e germânicas e, escrever, nada!

Aquele ano de 1967 não foi dos melhores pára mim. Troquei de jornal e minha coluna foi para o Unitário, matutino dos Diários Associados, o que havia de mais moderno no Ceará, em termo de Jornalismo impresso. No mesmo ano fui convidado pela mestra Adísia Sá para participar de um programa na então TV Ceará Canal 2, como o mesmo nome de minha coluna: No Mundo Universitário. Esse foi o meu primeiro contato com as câmeras e com o sufoco de um dia , por um motivo que não lembro, ter substituído a professora Adisia, na abertura do programa e na condução do mesmo.

Mas esse mundo de sonhos estava prestes a acabar de vez. As liberdades democráticas haviam sido suprimidas pelo golpe militar. O Curso de Jornalismo estava ameaçado de extinção por falta de professores e eu não queria parar minha carreira.

Assim, aproveitando a transferência do saudoso Professor Alcides Pinto para a Escola de Comunicação do Rio de Janeiro, pedi-lhe que levasse minha transferência, também, para a  ECO e , segui atrás, num vôo do Correio Aéreo Nacional (CAN), para o Rio de Janeiro., passagem conseguida pelo prestígio do saudoso Dr.Manuelito Eduardo.

Meu sonho era voltar para o Ceará e ser professor no Curso de Jornalismo da UFC, coisa que até tentei em 1986, quando já havia voltado do Rio. Mas, embora tenha sido aprovado, não tive “peso político” para ser escolhido para a única vaga que existia. O mesmo aconteceu no próximo concurso, em 87. Mas essa é outra longa história que um dia espero ainda contar...

No Rio, na Escola de Comunicação conheci dois escritores, por sinal também professores de jornalismo da ECO, que muito me influenciaram e ajudaram: José Louzeiro e Assis Brasil, de quem me tornei amigo.

Assis conseguiu para mim um estágio na Tribuna da Imprensa, de Hélio Fernandes, no auge dos atos institucionais, da censura prévia e da guerra de guerrilha que o Rio havia se transformado.

Louzeiro me levou para O Globo e ,anos mais tarde (1970), segui seus passos: pedi demissão do maior jornal da época e fui com ele me aventurar na criação do JE Jornal do Escritor, com uma ambiciosa meta: fazer um jornal literário com “cara” de jornal “grande” e viajar pelo Brasil, plantando a semente da criação do primeiro Sindicato dos Escritores. Essa passou  a ser a meta do jornal e com muito sacrifício e sofrimentos, conseguimos em 1971 , quando editamos o ultimo número do Jornal do Escritor.

Dali voltei para a “grande imprensa” como era chamada na época: Correio da Manhã, Última Hora, free-lance em agências como Trans-Press e um cem números de pequenas revistas especializadas. Lecionei História da Arte no Brasil e no Mundo, no IBET. Prestei vestibular para o Curso de Pós - Graduação, concorrendo com o corpo de professores da  ECO.Passei e continuei minha vidinha.

 Fui indicado pelo diretor do Eco, para ser o Editor – Responsável do Projeto Radam Brasil, do Ministério das Minas e Energias, onde editei cinco livros multidisciplinares sobre o Levantamento Aerofotogramétrico do Brasil e realizei o estudo da marca-símbolo do Projeto. Lecionei Publicidade e Propaganda na Faculdade Helio Alonso e Jornalismo Publicidade na Instituição Teresiana.

Sai do Projeto Radam Brasil e voltei para O Globo. E foi nesta volta a O Globo que a maior “barriga” do jornalismo de então me pegou de surpresa. Era um dia lindo de verão, as praias do Rio fervilhavam de banhistas e eu estava de plantão no sábado  e no domingo, pela manhã.

Quando recebi a pauta do dia, o destino havia me premiado ou me posto a prova: chegara uma denúncia no jornal que crianças pescavam com arpão entre os banhistas , na praia de Ipanema. Seguimos para lá no carro de reportágens e não foi difícil ver e fotografar as crianças pescando com arpão.

Voltamos para a redação, escrevi a matéria e no outro dia, a mesma rendeu a primeira pagina toda ilustrada com fotos. No domingo quando cheguei ao jornal o chefe de reportagem, Renan Miranda, repautou a “suíte” da matéria para mim, com a seguinte orientação: Ouvir o Juiz de Menores do Rio, Dr. Antonio Joaquim Campos Neto.

Descobrir uma autoridade no Rio, num dia de domingo é uma tarefa quase impossível. Mas não me fiz de rogado. Nas agendas do jornal não havia o telefone do Juiz que assumira ao cargo recentemente. O jeito mesmo era recorrer à velha lista telefônica e procurar por Antonio Joaquim Campos Neto.

E assim eu fiz: descobri mais de cem homônimos do Juiz de Menores e comecei a discar para cada um deles:

- Alô... É da casa do Dr. Campos Neto, Juiz e Menores do Rio de Janeiro?

Foram sucessivos nãos! Quando já estava pensando em desistir e pedir ao chefe de reportagem para pautar a matéria para a segunda-feira, alguém atendeu o telefone e me encheu de esperanças:

-É da cada do Dr. Campos Neto, Juiz de Menores do Rio de Janeiro?

- É sim!

-Ele está em casa?

- Esta, disse a voz no outro lado da linha.

- Pergunte-lhe se ele recebe a reportagem de O GLOBO, para falar sobre a pesca com arpões por menores em Ipanema.

Depois de um breve momento, o rapaz que nos atendeu voltou e disse que ele nos receberia. Confirmamos o endereço e corremos para lá , no bairro do Juá, na época um dos mais chiques do Rio de Janeiro.

Na entrada , quando vi a imensa casa, com cães enormes na vigia, fiquei meio preocupado. Um sexto sentido me dizia que tinha alguma coisa errada ali. Era muita riqueza para ser a casa de um juiz de menores. Mesmo assim, logo Antonio Joaquim Campos Neto veio nos atender, de calção de seda azul, com bolinhas brancas estampadas e um copo de wiske na mão:

-Vamos entrando, disse! Ali na piscina ficaremos mais à vontade!

Eu ainda estava meio cismado. Pedi ao fotografo que fizesse fotos em vários anglos e de gravador ligado comecei a entrevista. Dava para notar que o “juiz” já estava um pouco “ligado”, mas lúcido.

- Dr. Campos Neto, perguntei o Senhor tomou conhecimento da pesca com arpões, por adolescentes na praia de Ipanema?

 E ele:

- Tomei sim! Isso é um absurdo! Temos que tomar uma providência, fazer alguma coisa para evitar esse abuso. E se alguém for ferido?

E voltei a fustigá-lo:

O Senhor, digo melhor, o Juizado de Menores vai tomar alguma providência para conter esse tipo de pesca, realizada por crianças?

-Vamos Sim! Respondeu e reafirmou: o Juizado vai tomar uma providência drástica na segunda-feira.

- Como o Sr, pretende agir, já que se trata de crianças?

 E ele:

Os pais têm que ser notificados, os arpões apreendidos.

Aí insisti:

-Quer dizer que o Juizado de Menores, digo o Sr. Dr. Campos Neto, vai tomar uma providência urgente, não é?

-Isso mesmo, amanhã bem cedo o Juizado vai tomar uma providencia para coibir esse abuso.

Ainda estava desconfiado. Mas como conseguira a entrevista, agradecemos e rumamos para a redação.

-Conseguiu? Perguntou Renan, o chefe de reportagens.

- Consegui.

Comecei a tirar a gravação da fita. Naquela época os repórteres de jornais no Rio não usavam gravadores. Todo mundo tinha o seu bloquinho de papel e anotava tudo e memorizava a respostas. Só os repórteres da Radio Globo, cujos estúdios ficavam um andar acima da redação do GLOBO, na Rua Irineu Marinho, usavam a maquininha.
Isso me rendeu o apelido de “eletrônico”, pois nas coletivas ou no dia-a-dia, lá estava eu como meu velho gravador, do mesmo jeito que vira um dia numa revista Seleções: o repórter com o seu gravador na mão.

Retirar uma matéria de uma fita Kassete, naquela época, não era só sacal. Exigia concentração e certa técnica, pois em cima da fala do entrevistado tínhamos que improvisar para sintetizar a matéria. Nesse dia, acho que meu anjo me deu uma paciência enorme. Já eram mais de três horas quando terminei de retirar a matéria da fita. Entreguei os originais ao Chefe de Reportagens e já estava na minha hora. Fui almoçar e rumei para casa.

No outro dia, bem cedo, antes de ir para o jornal, passei numa banca e pedi para ver a edição de O GLOBO. Não dera outra: manchete de primeira página e a foto de Antonio Joaquim Campos Neto com seu short azul com bolinhas brancas e com o copo de wiske na mão: JUIZ DE MENORES VAI ACABAR COM A PESCA DE ARPÃO EM IPANEMA.

Rumei para a redação. Já no elevador me deram a notícia:

- Você está despedido, se previna!

- Por quê? Indaguei?

Você entrevistou um homem que não é o Juiz de Menores.

O frio bateu na “barriga”. Fiquei palito, o sangue sumiu. Mas com calma me dirigi para a mesa da chefia, onde Renan já me aguardava de dedo em riste:

- Você cometeu a maior “barriga” da imprensa carioca. Entrevistou um homem que não é o juiz de Menores.

Ai o jeito foi apelar para a gravação. A redação de O Globo, que naquela época já era um salão enorme, com todas as editorias lá acomodadas, ficou em silencio, para ouvir a fita. E os grupinhos, atentos passaram a ouvir a entrevista.

Conclusão: Antonio Joaquim Campos Neto era um homônimo do Doutor, Antonio Joaquim Campos Neto, Juiz de Menores do Rio de Janeiro, que acabara de assumir o cargo.

Até  os experientes editores de O Globo foram pegos de surpresa por este fato : ninguém conhecia ainda, realmente, o verdadeiro juiz. E a conclusão foi que o homônimo, por brincadeira ou não, se assumiu como se fosse o verdadeiro Juiz.

Escapei de ser demitido e ainda ganhei a terceira “suíte”: fazer a matéria com o Dr. Campos Neto (o verdadeiro) e estar presente na acareação realizada no Juizado de Menores, entre o verdadeiro Juiz e o "impostor", que, na verdade, era um corretor da Bolsa de Valores.

Na acareação o corretor da Bolsa, Campos Neto pediu desculpas ao Magistrado Campos Neto. Seu advogado convenceu o Juiz de Menores que seu cliente não “agira de má fé” e ficou o dito pelo não dito. Coisa que só acontece nos bastidores do poder.

Nessa época passei a ser um folclore vivo na redação de O GLOBO, de onde um dia novamente pedi demissão, (1979) para ir morar num sitio Itaboraí, onde fui criar gado, galinhas, viver livre dos grandes centros.

Na época José Louzeiro escreveu um artigo enaltecendo minha coragem. “Não é todo mundo que tem coragem de renunciar a um grande jornal e a tantas regalias, da cidade grande, para viver uma vida simples”. Mas o destino já estava escrito e nas asas do JM Jornal do Município, voltei para o meu único vicio: o jornalismo e a arte de escrever.


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domingo, 30 de janeiro de 2011


CONFISSÕES DE UM REPÓRTER
Ironnia? Mendigo conversa com estátua de Carlos Drummond de Andrade
                                O poeta João Cabral de Melo Neto
                   
COMO ENTREVISTEI CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


                         José Mário Lima


Corriam os anos de repressão política e nós na nossa vidinha de repórter, no Rio, um centro em ebulição das forças de reação a ditadura militar. Em 1969 voltei para O Globo, como repórter e acumulava a mesma função no JE – Jornal do Escritor, que ajudei fundar com o escritor e jornalista Jose Louzeiro.

Nessa época entrevistamos romancistas, contistas, poetas de todas as tendências e viajamos muito pelo Brasil. Numa série sobre as “vanguardas brasileiras” fizemos uma entrevista com o poeta João Cabral de Melo Neto e ele foi categórico ao afirmar:

-Sou mais famoso que Drummond!.

O Jornal do Escritor abriu manchete de primeira página, afinal João Cabral tinha uma espécie de rivalidade, com o consagrado Carlos Drumond de Andrade.
Daí em diante passei a tentar entrevistar Drummond. Mas o poeta não dava entrevista pra ninguém, naquela época.

Em 1969 Drummond largou o Correio da Manhã e passou a escrever suas Crônicas no Jornal do Brasil. Ai é que o poeta de Itabira ficou difícil, intransigente, a respeito de entrevistas.

Em 1970 , não lembro o mês, Carlos Drummond de Andrade publicou um novo livro de poemas (Caminhos de João Brandão, pela Editora Jose Olympio), e a imprensa inteira divulgou a noite de autógrafos, numa livraria do centro do Rio.

Lá fui eu designado pelo Globo para cobrir o lançamento. Ai não tive duvidas , encostei o microfone de meu gravador próximo a Drummond,, enquanto ele autografava os livros. O poeta era tão sisudo que dava medo e não respondia nenhuma das minhas perguntas. Fingia não ouvir e, para não ser indelicado aqui, ali, monossilava uma palavra, para responder as minhas insistentes perguntas.

- Poeta qual a importância desse novo livro, em relação a sua obra l iteraria?

- Poeta quais são seus projetos literários daqui para frente? Está escrevendo algo novo que queira mencionar?

E Drummond respondia, ora sim, ora não, mas sem entrar em detalhes. Torrei o saco do entrevistado, ele não podia nem pensar, pois estava ali no seu encalço, como um carrapato grudado em sua pele.

A certas alturas, indaguei:

-Que acha da afirmativa de João Cabral de Melo Neto, que disse ao Jornal do Escritor que é mais famoso do que o Sr.?

Foi a única fez que Carlos Drumond de Andrade perdeu a sisudez e a frieza.

- Cabral, mais famoso do que eu? Isso é brincadeira! Sou mais famoso do que ele.

E saiu de mansinho, tentando escapar no meio das pessoas que participavam do coquetel de lançamento.

Confesso: o que eu tinha gravado era  quase nada, diante do que ele ,  o laureado poeta de “Uma pedra no meio do Caminho”, “Seleta em Prosa e verso”, poderia ter dito se tivesse um pouco de boa vontade, não fosse tão arredio aos repórteres , apesar de muito vaidoso.

Como os “sins e nãos”, com as palavras sincopadas do Poeta Maior da época, montei uma matéria de uma lauda para O Globo. E se não me falha a memória, pois já se passaram mais de 40 anos, tinha um titulo mais ou menos assim:

"Drumond diz que é mais famoso que João Cabral".

Não deu outra. A matéria  como de praxe, foi reescrita pelos copy deskes de O Globo, e no outro dia estava na primeira página do Maior Jornal do País, de então.

No Jornal do Escritor minha matéria foi publicada na integra, sem cortes, pois José Louzeiro gostava da poesia de Drummond, mas não ia muito com o seu jeito mineiro, sisudo e impopular. Para ele, Louzeiro tinha uma frase especial:

- Drummond é um filho da p...!

E não o entendi até essa semana, quando estive com um  outro companheiro da mesma época, e quando recordamos nossas sofridas vidas nos tempos da ditadura.

João de Deus Pinheiro Filho, hoje PHD em Física Nuclear, professor da Universidade Fluminense aposentado e membro da Cnen, me explicou o verdadeiro significado do termo:

- O mau caráter existe em toda sociedade e é ate aceitável! Mas o Filho da P.... esse deveria morrer e ir logo direto para o inferno.

E explicou:

- É que o Filho da P.... Não se conforma em te prejudicar. Ele quer te lascar mesmo, te fazer o mau!

Ai entendi a posição de Carlos Drummond de Andrade e sua reação "punitiva",por  ter sido o primeiro repórter a entrevista-lo, “desvirginando” para sempre nas letras diárias de um jornal, o autor premiado das Letras Nacionais. E ele não podia me desmentir. Estava tudo bem gravado! Daí para frente Drummond passou a dar entrevista a qualquer jornalista que o procurasse.

No dia seguinte , a publicação de minha matéria em O Globo,( que gostaria muito de reavê-la nos arquivos daquele periódico),- Carlos Drumond de Andrade tentou me desmoralizar em sua coluna do Jornal do Brasil.

Narrou  que durante o lançamento de seu livro um reportezinho lhe fizera a seguinte pergunta:

- Poeta quando publicará seu próximo romance?

Essa foi à maneira irônica que achou para me punir, afinal ele era Carlos Drummond de Andrade e eu um simples repórter "C" de O Globo. Quem acreditaria em mim, embora soubéssemos que Drummond nunca escreveu romances, só poemas, crônicas e contos?

José Louzeiro, Assis Brasil e muitos outros escritores acreditaram. Por isso meu esforço hercúleo foi editado na íntegra no Jornal do Escritor.

 João Cabral de Melo Neto, então embaixador do Brasil em Barcelona, dono da cadeira numero 6 da Academia Brasileira de Letras, autor de inúmeros livros premiados, entre os quais "Morte e Vida Severina", deve ter dado boas risadas, quando tomou conhecimento da polêmica e com a hostilidade do sensível poeta de "Boi Tempo".

Ele mesmo nos diz em Vida e Morte Severina:

"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."

(Morte e Vida Severina)

E Carlos Drummond de Andrade passou em nossas vidas como todas as coisas passam, menos nas lembranças e nos seus lindos poemas que sempre mostraram que o homem é um, e o artista é outro, como bem mostra seu poema:

CIDADEZINHA QUALQUER
1967 - JOSÉ & OUTROS

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar ... as janelas olham.

ETA vida besta, meu Deus.


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CONFISSÕES DE UM REPÓRTER


O DIA QUE FIQUEI SEM OS ÓCULOS

 JOSÉ MÁRIO LIMA

Naqueles muitos dias  em que vivi no Rio de Janeiro , em meio a uma verdadeira guerra-de-guerrilha, são muitas as recordações. Como esquecer a velha Lapa, carcomida, decadente e moribunda. Como esquecer a mendicância e a prostituição e todo tipo de violência contra o ser humano, que presenciávamos ali, ao vivo, como numa tela de TV, pelo largo vitrô que nos separava da rua?
Esta semana recebi a visita de um  velho amigo daquela época, Dr. João de Deus Pinheiro Filho, físico nuclear, PhD em física atômica nos EUA e membro da Cnen ( Companhia Nacional de Energia Nuclear). Naqueles dias ele era só João de Deus. Fomos para o Rio no mesmo dia, ele pela manhã, a bordo de um constelation da Varig e eu num antigo bombardeiro da Segunda Guerra Mundial, a época a serviço do Correio Aéreo Nacional (CAN).


 Compartilhamos a segunda noite no Rio , de uma cabeça-de-porco, na Rua Riachuelo, um local onde dormiam mais de dez pessoas, em camas beliches e colchões espalhados pelo chão.


Não esqueço que demos graças a Deus o dia amanhecer, para sair daquele antro e no clima frio das manhas do Rio, fomos procurar a Casa de Estudantes, na rua Visconde de Maranguape. Foram dias difíceis, de solidão, pobreza e perseguição política. Também quem mandou largar a “terrinha” em plena ebulição do golpe de 64, os anos que trouxeram o AI-5 e tantos outros Ais?


Fomos estudar na mesma faculdade, a Escola de Comunicação do Rio de Janeiro, em frente à Praça da República e quando lá chegamos naquele clima de perseguição política, cismaram conosco. Na mesma época também se transferiu para a mesma escola um major cearense, reformado da Aeronáutica, de codinome Falança. Isso foi o bastante para que circulassem boatos na faculdade que nós éramos do DOPS, enviados do Ceara para espionar os estudantes da faculdade.


Passamos a ser rejeitados na Escola de Comunicação e vistos sob suspeição. Façanha, apesar de ser da Aeronáutica, tinha sido reformado por problemas psiquiátricos e nós dois, eu e João de Deus, éramos dois “bocós”, que nem de política entendíamos na época. 
Mas se os estudantes rejeitaram nossa amizade, os professores  se tornaram nossos amigos. Assim passei a ser protegido da sanha louca e da paranóia daqueles tempos, granjeando a simpatia do professor Assis Brasil, Jose Louzeiro, Artur Tavares e professor Lisboa, então diretor da Escola de Comunicação do Rio de Janeiro.


Saia da Casa de Estudantes cedo, pois as aulas começavam as 7 horas e isso sem tomar um único cafezinho. Lá pelas nove horas, num intervalo,João de Deus , que tinha uma situação financeira melhor do que a minha, pagava um “pingado” ( café com leite) e ai haja o tempo custar a passar, pois ao meio dia almoçávamos no restaurante do CACO, Centro Acadêmico da Faculdade de Direito da UFRJ, do outro lado da Praça da República.
Nesta época, março de 1968, o restaurante do Calabouço estava fechado e só servia de local de concentrações e barricadas dos estudantes contra a ditadura. O prédio da UNE, na praia do Flamengo, era constantemente invadido e um dia foi incendiado pela policia. E os estudantes não tinham outro local para se concentrar.
Depois do almoço, no CACO, corria para o estagio na Tribuna da Imprensa, que não pagava nem os profissionais em dia, quando mais os estagiários. So tínhamos direito a um vale refeição na cantina do jornal.


João de Deus continuou morando na Casa de Estudantes, na Lapa, mas largou a Escola de Comunicação e foi seguir sua verdadeira vocação a de físico, na Escola de Física do Fundão. Logo se tornou professor da matéria e daí para frente sua vida mudou da água para o vinho. Nós continuamos na velha cachaça do jornalismo...


E por falar em cachaça como esquecer Luiz Carlos Sarmento e sua mulher Leda, excelentes repórteres da Tribuna. Ele repórter policial dos melhores, mas um bêbado  inveterado e a mulher não ficava atrás. Os dois, às vezes amanheciam caídos sobre as mesas dos bares da Lapa ou nas cercanias da Tribuna.


Os anos passaram e fui trabalhar no O GLOBO, em 1969. Lá encontrei um Luiz Carlos Sarmento que andava exibindo uma fichinha verde dos Alcoólicos Anônimos. Vivia sóbrio, na sua luta eterna contra o álcool. Foi ele o repórter especial do jornal a ser designado a cobrir a morte da pantera Leila Diniz, assassinada em Búzios, por seu amante, Doca Stret.


Para mim só sobrava as ruas, as  passeatas, os féretros, os assassinatos comuns, acidentes, hipismo, a cobertura na Delegacia de Tóxicos, na Praça Mauá. Repórter geral não escolhe matéria para fazer. Faz o que lhe mandam, segue a pauta que lhe dão. Assim numa bela manha de julho, a cidade com aquele friozinho gostoso, úmido, que dava uma fome danada, fui mandado cobrir manifestações de estudantes no centro do Rio.

Desde a época de estagiário na Tribuna, já vira tanta violência e arbitrariedade, que tinha medo até da própria sombra. A Casa dos Estudantes era sempre invadida e os estudantes viviam desconfiando uns dos outros. Essa era uma velha tática da direita para dividi-los. E muitos recebiam benesses do sistema para “dedar” os colegas, as famosas bolsas de estudos. Naquela época não se podia confiar em ninguém.
Nesse dia os estudantes estavam concentrados na Cinelândia e ao longo da Avenida Rio Branco. Os piquetes, para evitar os confrontos diretos com a policia, se dividiam em todos os sentidos. Ao invés de grandes concentrações, atacavam em pequenos grupos e em seguida fugiam para outra parte do centro.
Como sempre, fazíamos parte de um grupo de repórteres que acompanhávamos as passeatas no final delas. Tínhamos uma visão privilegiada de tudo e conseguíamos nos safar da violência que não perguntava quem você era. Já chegava atirando e batendo com cassetetes de madeira, ou de sabre em punho, lançando granadas de gás lacrimogêneo.


Mas neste dia o tiro saiu pela culatra: a cavalaria entrou em cena e vinha do final da Avenida Rio Branco, no sentido da Cinelândia. Eram tantas bombas de gás, que a Avenida, com a inversão térmica do inverno, virou um nevoeiro só. Quando vimos à cavalaria de sabre em punho, perseguido os estudantes pela retaguarda, o jeito foi buscar abrigo nos edifícios comerciais.
Bem próximo a Rua Sete de Setembro ficava a sede do Sindicato dos Bancários e foi pra lá que corri. Só que meus óculos caíram no asfalto e não dava tempo voltar,  pois a cavalaria vinha a galope , com toda fúria, bem próxima de mim.
Consegui me esgueirar junto à parede, próximo a porta já tomada por uma multidão. Quando a cavalaria passou fui tentar encontrar meus óculos que caíram no asfalto. Só havia uma maça disforme. As lentes viraram picadinho, as hastes arames retorcidos pelas patas dos cavalos.
Voltamos para o jornal e felizmente, O Globo dava toda assistência médica e alimentar a seus repórteres. Logo fui a um oculista e consegui novos óculos. Mas não esqueci aquela manhã fria, cinzenta, por ser inverno e pela nuvem de gás lacrimogêneo que pairava no centro do Rio, em mais um dia de manifestações estudantis pela liberdade de expressão e pelo fim da ditadura.

Quem somos

JM JORNAL DO MUNICÍPIO - JM JORNAL DO MUNDO - Orgão Sócio-Cultural de Utilidade Pública em Defesa da Cidadania nos bairros e municípios brasileiros. Diretor–Editor–Responsável:José Mário Lima. Reg. Prof.12418 DRT-RIO. Secretário Geral – Gabriel Pontes.Designer Gráfico- Alice Farias Lima.Layout e Criação – Gabriel Pontes. Secretário de Edição: José Mário Lima.COLABORADORES: Colunistas :Celina Côrte Pinheiro,Nilmar Marques (Cap.Nil), Orion Lima, Santos Sá,Henrique Soares,Assis Brasil; JM Reportágens: (Equipe)Henrique Soares,Gabriel Pontes e Santos Sá; -JM Cultura:(Equipe)- Publicidade (JML) - Movimento Estudantil: Gabriel Pontes. JM Esportes: (equipe)- JM Literatura: Assis Brasil. Notícias dos Bairros: Henrique Soares,Amil Castro; Sociedade-artesanatos: Martha Lima.Culinária : Lili(Faraó-Cacoeiras-RJ). Correspondentes: Redenção: Nice Farias;Irauçuba: Swami Nitamo;Teresina e Parnaíba: Assis Brasil;Estado do Rio de Janeiro (interior): Nilmar Marques - Cachoeiras de Macacu: Paschoal Guida. Rio,(Capital): João de Deus Pinheiro Filho. *As opiniões emitidas em artigos assinados são da inteira responsabilidade de seus autores.